Bombeiros alertam para os perigos da estiagem

Tenente Rafael Maia, chefe de Comunicação do 9º Grupamento do Corpo de Bombeiro, afirma que casos de incêndio são causados por ação humana
Tenente Rafael Maia explica fatores de risco e como os cidadãos devem agir diante do fogo

 

Quais são as principais causas das queimadas, em Ribeirão Preto?

Eu acho que isso é uma realidade de todo o Brasil, talvez de todo o mundo. Nós temos alguns estudos científicos que falam sobre a causa dos incêndios e podemos afirmar que 99% é humana. Existiam boatos de que esse fogo poderia surgir espontaneamente, mas a única probabilidade disso acontecer seria por raios. Só que na época do ano em que isso atinge a nossa região, fica um pouco mais difícil, então, seriam tempestades secas e um fenômeno muito raro.

Existem pessoas incendiárias. Acidentalmente ou não, ocorre por causas humanas, mas é mais comum as pessoas propositalmente irem lá e colocarem fogo mesmo.

 

No geral, percebemos mais casos de incêndio no segundo semestre. Isso é um fato? Se sim, por que acontece?

A nossa região sofre muito com a estiagem. A gente está mais no centro do continente e aqui se formam as zonas de alta pressão que dificultam a chegada de frente fria do litoral.

Aquelas nuvens carregadas com chuvas ficam até a capital paulista, no máximo em Campinas, e não conseguem chegar por muito tempo. É preciso que essa massa venha com muita força para vencer a área de alta pressão, e isso faz com que tenhamos menos chuva.

E o período de maio até outubro, dependendo do início das chuvas, é o período de estiagem. Alguns anos ele se prolonga, porque cessam antes, mas esse ano, por exemplo, elas avançaram um pouco mais.

 

Existem áreas mais propensas a esses incêndios?

A proporção de vegetação que a gente tem de plantio é maior do que a de área preservada. Então, naturalmente, os incêndios acontecem mais em áreas cultivadas, mas isso não diz que seja mais propício um ou outro.

Nós acompanhamos principalmente as reservas que são administradas pela Fundação Florestal e, ao longo dos anos, criou-se uma parceria com esses órgãos para garantir o monitoramento e fiscalização, porque são áreas que necessitam de um cuidado maior. Elas têm biodiversidade, espécies preservadas e em extinção, e dependem de um aparato diferente.

 

Algumas condições podem dificultar a eliminação desses incêndios?

A gente chama de 30-30-30. São questões climáticas que, quando estão juntas, dificultam muito a nossa ação e potencializam muito a ação do fogo. São temperaturas acima de 30ºC, ventos acima de 30 km/h e umidade relativa do ar abaixo de 30%. Nessas três condições, quando todas juntas, o fogo se propaga de uma maneira mais rápida.

No ano passado, nos dias 24 e 25 de agosto, muito críticos em Ribeirão Preto, registramos todas essas características. Nós tínhamos ventos até 90 km/h, a umidade relativa do ar estava por volta de 10% a 15% e a temperatura em 35ºC. Isso potencializava qualquer fogo, ocasionando incêndios em diversos pontos ao mesmo tempo.

 

Nos dias 10 e 11 de setembro de 2025, a população de Ribeirão Preto recebeu alertas sobre a umidade do ar e com a orientação para não atear fogo. Há preocupações nesse momento?

A gente está em alerta máximo. Não posso falar de maneira nenhuma que é uma situação tranquila, mas é diferente do ano passado, quando a estiagem foi maior. A vegetação estava mais seca, em um clima intenso. Surgiram vários focos de incêndio de uma vez, num período crítico. Hoje, temos incêndios recorrentes, mas atendemos eles de uma forma normal para a nossa região e para essa época do ano.

Esses alertas são um sistema novo da Defesa Civil. Ele não é para espantar a população, mas para ter um cuidado maior. O que é interessante frisar é a fiscalização de todos os incendiários. As pessoas que provocam esse tipo de incêndio têm que ser punidas. Alertamos que façam uma denúncia para o 190.

Se você tem conhecimento ou registros de uma pessoa ateando fogo, essas informações são muito valiosas, porque, com elas, a probatoria vai conseguir imputar uma responsabilidade para que a pessoa responda a um processo criminal.

 

O que os cidadãos devem fazer ao presenciar um princípio de incêndio?

Nós diferimos um incêndio de um princípio da seguinte forma: um incêndio já tomou proporções grandes. A pessoa não consegue ir com um balde d’água ou uma mangueira e controlar aquele fogo.

Nesse caso, se você tem conhecimento de brigada, treinamento, tudo bem, mas se a aproximação está dificultosa, com a fumaça vindo para cima de você, é melhor se afastar. A possibilidade de lesão não vale a pena. Ligue 193.

 

Como funciona a “Operação São Paulo Sem Fogo”?

Essa é uma ação do governo do Estado que tinha o nome de “Operação Corta Fogo”. É uma evolução em que integramos a maior quantidade de órgãos possível para passar essa época de estiagem de uma forma melhor. Realizamos divulgações de educação ao público, treinamento de pessoas e mobilização total para o combate.

 

Depois de queimada, a mata natural consegue se regenerar?

Nós temos alguns tipos de vegetação na região, mas predomina-se o cerrado, que, por si só, tem a característica de uma mata resistente ao fogo. Só que não significa que, após queimada, a biodiversidade vai ressurgir.

Em conversas com biólogos, eles afirmam que demoram anos para que uma área vegetativa queimada se reestruture por completo. Às vezes, ela nem vai chegar no patamar pelos próximos 10 anos. Há sempre um prejuízo e uma diferença biológica daquela que não pegou fogo.

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