
O Aquífero Guarani, maior reservatório transfronteiriço de água doce do planeta, está em alerta. Uma pesquisa do Instituto de Geociências da Unesp de Rio Claro revelou que a recarga natural do sistema não acompanha o ritmo da exploração atual. O dado preocupa, principalmente em cidades como Ribeirão Preto, que dependem exclusivamente dessa reserva subterrânea para o abastecimento. Presente no subsolo do Sul e do Sudeste brasileiro, além de Paraguai, Uruguai e Argentina, o Guarani garante água para cerca de 90 milhões de pessoas e ainda mantém rios e lagos em períodos de estiagem no interior paulista, um papel vital diante das variações climáticas cada vez mais intensas.
Mas, apesar de sua dimensão continental, o aquífero não é uma fonte inesgotável. Segundo o professor Marcelo Pereira de Sousa, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da USP, especialista em meio ambiente, é preciso entender a dinâmica natural desse sistema antes de usá-lo de forma acelerada. “Eu não posso pensar o aquífero da mesma maneira que eu penso os rios, porque o Aquífero Guarani fica nos interstícios da rocha. A rocha, chamada arenito, é porosa, então a água fica nos vãos desses poros. Com isso, eu tenho muita água, porém ela anda devagarinho nesse aquífero. Se eu retirar mais água do que a capacidade natural de reposição, eu acabo com o aquífero regionalmente. A água daqui não vai para o Paraguai, e do Paraguai não vem para cá tão rapidamente”, explica.
Essa lentidão natural torna o processo de reposição extremamente delicado. “Para repor essa água serão centenas de anos. A água lá embaixo anda menos de um metro por ano. Portanto, toda vez que eu tiro mais do que a capacidade de reposição, vou fazer com que ele tenha uma perda de qualidade e de quantidade de água. Portanto, eu tenho que tomar extremo cuidado”, reforça o professor.
O Aquífero Guarani no cenário global
O desafio se agrava diante das mudanças climáticas. Além de alterar o regime de chuvas, o aquecimento global está redesenhando o caminho da umidade sobre o território brasileiro. Segundo reportagem do jornalista Jorge Marin, da CNN Brasil, os chamados “rios voadores” da Amazônia, verdadeiras correntes invisíveis de vapor que cruzam o continente, são responsáveis por transportar a umidade amazônica para as regiões centrais e do Sul do país. Quando o desmatamento e o aumento das temperaturas interrompem esse ciclo, há menos chuva, o que ameaça ecossistemas como a Mata Atlântica, que cobre parte do território de Ribeirão Preto e contribui para a infiltração de água no subsolo.
A interrupção desses fluxos afeta diretamente a recarga do Aquífero Guarani. “Veja, as mudanças climáticas estão em curso, estão acontecendo. Pelos modelos matemáticos, haverá um decaimento do processo de chuva espalhada no tempo. Haverá mais concentrações de chuva. Toda vez que você tem concentração de chuva, significa que a água vai mais escorrer, porque é muita, do que penetrar. Portanto, é esperado, com o passar do tempo, termos menos infiltração de água no aquífero. Até porque os rios da nossa região e de todo o Brasil estão perdendo vazão, estão perdendo quantidade de água. E isso significa que também perdem capacidade de abastecer a água subterrânea”, explica Sousa.
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O papel da sociedade
O cenário exige responsabilidade coletiva. A preservação do Aquífero Guarani depende do poder público e das empresas e, igualmente, do envolvimento social. “Você tem que participar do processo de decisão, por conselhos, por comitês, por organizações não governamentais. A primeira questão é exercer a sua cidadania. E a cidadania não é exercida apenas no voto, e sim nos seus direitos. Foi para isso que o Brasil montou o Ministério Público, nós temos as ONGs, os fóruns de debate. É importante a torneira. É importante você tomar conta daquilo que entra na sua residência. Mas é insuficiente, porque existe aquilo que não está na sua residência, que é o poder de decisão”, completa o professor.
A urgência é clara, preservar o aquífero garante o abastecimento das próximas décadas e assegura o direito básico à água para as gerações futuras. O tempo da natureza é lento, e o do consumo humano, veloz. Entre esses dois ritmos, está o desafio de equilibrar desenvolvimento e sobrevivência.