Com mais de quatro décadas dedicadas à cultura hip-hop, Thaíde é uma das vozes mais influentes do rap nacional. Pioneiro do movimento no Brasil, ele foi um dos primeiros artistas a transformar a realidade das periferias em música, abrindo caminho para gerações futuras.
Nesta entrevista, Thaíde relembra os desafios do início da cena hip-hop nos anos 1980, compartilha lembranças marcantes das primeiras apresentações e reflete sobre as transformações que a cultura sofreu ao longo do tempo, sempre com a convicção de que o hip-hop não é só arte, mas também resistência.
Como era o movimento hip hop naquela época?
“O hip-hop chegou aqui ao Brasil em meados de 82, e teve o seu ápice em 85. Nesse período, eu ajudei na fundação de três gangues. Primeiro foi as Panteras Negras, a segunda Dragon Breakers e a terceira Backspin. E, Backspin até hoje está em atividade.”
Como você conheceu o hip hop e o que te fez entrar de cabeça nesse movimento?
“A primeira imagem que eu vi de hip-hop foi através da TV. Vi alguém dançando break, girando de costas. Como eu já era dançarino, já dançava soul e funk na época, entendi aquilo como uma transição, uma evolução do que eu já fazia. Quis aprender aquilo imediatamente. Isso me fez mergulhar na cultura hip-hop.”
Você sentia que o hip hop já tinha uma mensagem política no começo ou isso veio depois?
“Na verdade, não sabíamos do que se tratava realmente. No início, achávamos que era só um movimento de dança, em que a gente podia se expressar. Com o tempo, fomos entendendo que a cultura hip-hop também tem o grafite, o rap e o DJ. Comecei a entender que a música rap trazia mensagens sérias, políticas, através dos videoclipes. Não tínhamos internet naquela época, o que chegava eram revistas que falavam muito da dança. Mas quando a cultura passou a fazer parte da nossa vida, levamos tudo muito a sério e com respeito.”
Qual era a maior dificuldade de fazer rap no começo da popularização do hip hop?
“Eram todas as dificuldades, todas. Não tinha estúdio na ‘quebrada’, muitas vezes era preciso atravessar a cidade, passar três horas no transporte só para gravar meia hora e voltar. Além disso, as pessoas não conheciam o estilo de música, não tocava nas rádios. Não tínhamos ídolos do rap nacional ainda. Fora a repressão política, mas valeu a pena.”
Que lembrança mais marcante você tem das primeiras apresentações?
“Uma das mais marcantes foi quando precisei explicar para o público o que era rap. Foi em um baile na zona Leste. Eu tinha só duas músicas, “Corpo Fechado” e “Homens da Lei”, que ainda não tinham sido lançadas. Disse ao público: “Vou fazer uma música chamada rap, um estilo novo que está chegando no país. É uma música que fala sobre os nossos problemas, a nossa realidade”. Algumas pessoas viraram as costas, outras pediram samba rock de novo. Foi complicado, mas lembro com carinho. Graças a Deus, sou um desbravador do rap brasileiro. Tô na atividade até hoje.”
O que mudou de lá pra cá?
“Tudo mudou. Hoje temos estúdios em todo lugar, inclusive no celular. Tenho músicas gravadas no meu próprio celular. Existem grandes nomes no grafite, no DJ, no breaking e no rap. Isso foi conquistado com muito sofrimento, suor e sangue. Conseguimos popularizar uma música que denuncia as mazelas, que aponta o dedo na ferida. O hip-hop reinventou tudo. Reinventou até este que vos fala. O Altair Gonçalves, que tem o alter ego Thaíde, foi forjado pela cultura hip-hop. A partir dela, tornei-me dançarino, repórter, apresentador, ator, produtor, jornalista. Estou na atividade até hoje. Só tenho a agradecer. Vamos que vamos, porque o hip-hop não pode parar.”
