Da invisibilidade nos vestiários às conversas abertas entre atletas, a saúde mental no esporte deixa o tabu para assumir seu papel essencial no rendimento e na vida de quem compete
Falar sobre saúde mental no esporte ainda é, para muitos atletas, uma barreira silenciosa. No vestiário, na quadra ou no campo, há uma expectativa quase automática de força, foco e superação. O corpo precisa ser resistente, e a mente, inabalável, o que gera a ideia de que os atletas não são humanos comuns, que não podem demonstrar vulnerabilidade e fraqueza. Mas a verdade é que nenhum atleta — independentemente da modalidade ou do nível de competição — está imune a sentimentos de ansiedade, medo, insegurança ou esgotamento.
O esporte, por mais coletivo que seja, pode se tornar um lugar solitário quando não há espaço para falar sobre o que realmente se sente e está passando. Existir espaço para a saúde mental vem se tornando cada vez mais uma necessidade no esporte, e, o vestiário, os treinos e as viagens podem se tornar territórios seguros para essa conversa, desde que exista respeito, confiança e escuta verdadeira.
É possível notar uma evolução no que diz respeito ao cuidado com a saúde mental no ambiente esportivo. Hoje, pesquisas comprovam que o cuidado com a mente do atleta gera resultados positivos, como a melhora do desempenho, por exemplo. Problema que décadas atrás praticamente não era abordado, para não dizer que era um assunto completamente ausente, como destaca o ex-jogador Juninho Fonseca. “Minha carreira foi de 1974 até por volta de 1994, então minha história foi de um período que não tinha esse profissional que cuida da saúde mental. Não tínhamos um psicólogo para nos oferecer esse apoio sistemático e seguro que os atletas encontram hoje nos clubes onde eles atuam […] a diferença da minha época para os dias atuais sobre essa questão da saúde mental, é 100%. Sem esse suporte, nós atletas que nos ajudávamos com essa questão da saúde mental, principalmente no alojamento”, completou o ex-zagueiro do Corinthians e da Seleção Brasileira.
Indo para os dias atuais, onde apesar de existirem muito mais ferramentas, a saúde mental ainda é tratada com a devida importância no ambiente esportivo. Existem diversas barreiras e paradigmas que impedem com que os atletas externem algo que estejam sentido, alguma situação pela qual estejam passando. Contando com a presença dos psicólogos nos clubes, é natural que os jogadores se sintam mais à vontade para conversar com esse profissional em particular, onde têm a certeza de que não será julgado de alguma maneira por demonstrar um lado mais humano e vulnerável, como aponta o goleiro Gabriel Buzzetto. “No passado, eu sentia que existia menos espaço para esse tipo de conversa entre os companheiros de time. Hoje, existe esse espaço, mas ainda é tratado com essa questão da vulnerabilidade, dos caras se sentirem fracos”.
Buzzetto ainda destaca que apesar de ainda não estar no estágio ideal, enxerga uma presença maior do tema no dia a dia entre seus companheiros. “É claro que todo mundo conversa entre si, o grupo se dá bem. Mas é normal existirem ciclos mais próximos formados dentro dos times e falar sobre isso nesses grupos mais restritos. Eu vejo que cada vez mais, os jogadores estão falando e compartilhando coisas, e não só sobre o dia a dia do clube, que afeta a saúde mental, mas também sobre questões externas que também influenciam no psicológico, então eu acho que esse espaço está crescendo cada vez mais dentro dos clubes”.
Através dos relatos de Juninho e de Buzzetto, constata-se que sempre existiu a conversa sobre a saúde mental no esporte entre os companheiros, apesar de diferentes realidades. Na década de 70, isso ocorria por necessidade, pela ausência de um profissional para fazer um acompanhamento; hoje, acontece em paralelo a uma estrutura mais ampla, com psicólogos e equipes multidisciplinares. Mas só agora, esse diálogo começa a ganhar legitimidade dentro do ambiente esportivo. Ele deixa de ser um assunto escondido nos bastidores para se tornar pauta reconhecida e, aos poucos, normalizada, o que é de suma importância, considerando o impacto e a influência que os atletas têm para a valorização do tema, afinal, ninguém melhor do que eles mesmos para fazer com que a saúde mental ganhe cada vez mais força no mundo dos esportes.


