O crescimento das apostas esportivas no Brasil parece inevitável. Todos os dias, milhares de novos cadastros são feitos nas plataformas, impulsionando um mercado bilionário. Conhecidas como bets, essas apostas carregam uma cultura mais antiga do que se imagina. Entre a pressão sobre jogadores e o cuidado da mídia diante de patrocinadores, o tema se tornou um dos maiores desafios éticos do futebol moderno.
As apostas esportivas chegaram ao Brasil ainda no período colonial, trazidas pelos portugueses, junto de outros jogos como cartas e dados. O cientista social Breno Silva destaca “um marco importante: em 1917, o governo federal criou a Loteria Federal, que teve um retumbante sucesso”. Desde então, as práticas de jogo passaram por um constante vai e vem entre legalizações e proibições. Segundo Silva, “a tradição de ‘fazer uma fezinha’ sempre foi muito forte na cultura popular brasileira”.
A relação entre as apostas e o futebol brasileiro começou no século passado. De acordo com Silva, isso ocorre desde o início da profissionalização do esporte, em 1933. “Você sempre vai ter uma relação, mas institucionalmente isso ganha relevância em 1970, durante a ditadura civil-militar, com a criação e regulamentação da Loteca”, explica o cientista social.
As apostas passaram por diversas legalizações e proibições até os dias atuais. Em 2025, foram implementadas regulamentações pelo governo federal, a fim de limitar as ações das bets e dos usuários, que exigem atuação dentro da legalidade e minimizar os impactos negativos. Mesmo assim, há muitos registros de manipulações envolvendo jogadores. Segundo o Globo Esporte (GE), cerca de 57 casos de manipulação foram registrados em 2024, contra 110 em 2023. Um exemplo disso são os jogadores envolvidos na Operação Penalidade Máxima. Em 2023, cerca de 22 jogadores foram punidos, entre banimentos, suspensões e multas.
Os motivos que levam um jogador a aceitar envolvimento em manipulações são diversos. Matheus Refundini, goleiro profissional, relata: “Nós, jogadores, participamos de alguns clubes que não pagam ou pagam pouco. E o atleta aceita pelo dinheiro. Eu vejo que é o único motivo, porque é um dinheiro rápido e fácil.”

O jornalista Vinícius Alves acrescenta que um dos fatores que explicam esses casos são os baixos salários. “Às vezes, uma oferta que vem de manipulação de resultado faz o jogador ganhar em um jogo o que não recebe em um mês. Não que seja certo, mas acaba sendo atrativo”. Por isso, os clubes passaram a ter mais responsabilidade ainda no pagamento em dia e justo aos seus jogadores, para contribuírem com a diminuição de casos.
PROBLEMAS FINANCEIROS
Para equilibrar as finanças, muitos clubes têm recorrido às empresas de apostas esportivas em busca de patrocínios. Com o alto poder econômico do setor, as bets têm estampado a camisa da maioria dos times da elite. “Há o impacto financeiro: em 2023, dos 20 clubes do Campeonato Brasileiro – Série A, apenas 5 não tinham. Hoje, só o Red Bull Bragantino e o Mirassol não tem patrocinador master do setor, porém, tem patrocínio (das casas de apostas)”.
O jornalismo tem o papel de informar sobre os malefícios e de alertar a população. Diante disso, há desafios por conta de propagandas que as emissoras fazem, principalmente, nos intervalos dos jogos. “A imprensa tem um papel importantíssimo. A partir do momento que chega e se apura uma denúncia, é preciso noticiar. Não tem como você fechar um fechar os olhos para casos como esse”, comenta Alves.
O jornalista ressalta os benefícios de a imprensa estar presente no combate às manipulações envolvendo apostas esportivas. “Tendo uma imprensa mais presente, acredito que isso acaba inibindo a ação dos apostadores nesses esquemas”, disse. Por isso, é fundamental que todos colaborem na redução desses casos.
Por fim, Refundini aconselha os atletas a não se envolverem em apostas ilícitas, pois há o risco de serem descobertos e manchar a própria carreira. “Não façam. É um dinheiro momentâneo e rápido. É muito difícil não ser descoberto”.
Por isso, é fundamental que as autoridades estejam sempre presentes e apliquem a lei corretamente nos casos de manipulação. Que os clubes cumpram rigorosamente seus contratos, para que os jogadores não sejam prejudicados, e que os atletas, caso enfrentem dificuldades, busquem alternativas legais e seguras. A corrupção no futebol não é solução para problemas financeiros; quem se envolve em manipulação acaba colocando a carreira em risco.



