Escondido a plena vista

Ao andar pelo Centro de Ribeirão Preto deparamos com uma mistura de cenários. Desde lojas, vendendo uma infinidade de produtos, a prédios residenciais, com o vai e vem de moradores, até restaurantes com cheiros e gostos para agradar qualquer um, mas não se pode esquecer dos edifícios, palacetes e outras estruturas que se não são centenárias, beiram essa marca. Caso conheça a cidade, imagino que tenha pensado no Quarteirão Paulista, com a imponência de suas três edificações, a Choperia Pinguim, o Theatro Pedro II e o Centro Cultural Palace. Porém, bem ao lado, tem um local tão impressionante quanto esses e que apesar de não ser tão famoso e nem mesmo movimentado, representa a rica história da cidade, o Edifício Diederichsen.

Fundado em 1937, o prédio leva o nome de seu financiador, o empresário Antonio Diederichsen, figura importante para a trajetória do município, atuando como mecenas durante o período áureo do café em Ribeirão Preto. O projeto ficou a cargo do construtor Paschoal de Vicenzo e do arquiteto Antônio Terreri, desenrolando-se ao longo de três anos. Ao final revelou-se a estrutura em Art Déco que está de pé até hoje no quadrilátero entre as ruas Álvares Cabral, São Sebastião e General Osório. Toda sua pompa e fama, sendo documentada em jornais da época, como o “Correio Paulistano” e o “Diário do Norte”, deve-se pelo ineditismo de ser o primeiro edifício multifuncional do interior paulista e do interior de todo o Brasil.

Fachada do edifício Diederichsen visto do cruzamento das ruas Gen. Osório e Alvares Cabral
Fachada do edifício Diederichsen visto do cruzamento das ruas Gen. Osório e Alvares Cabral

Como destaca o jornalista e autor do livro “Diederichsen – O sonho de Antonio em concreto”, José Manuel Lourenço, parte da importância dessa estrutura se deve ao fato de ser o pioneiro no interior a ter funcionalidades diferentes para seus andares, distribuído entre cinema, salas comerciais, residências e um hotel. Contudo, não apenas essa característica o torna especial, mas pelo potencial sociocultural que ele possui. “O Diederichsen é, para mim, importante, primeiro pela própria história pessoal dele, de ser o primeiro multiúso do interior do Brasil. E depois ele deve ser visto como um grande foco irradiador de, sobretudo, economia criativa, em Ribeirão Preto. Pelo tamanho, pela dimensão dele, pelo fato de ser multiúso, Ele te permite esse perfil de polo irradiador de muita coisa. Porque você vê, o futuro do Brasil não vai ser produzir pneu, não vai ser produzir prego, não vai ser produzir cadeira, vai ser produzir inteligência”, ressalta.

Após a morte do homem que lhe deu o nome, o prédio foi doado à Santa Casa de Ribeirão Preto, que detém o controle do local até os dias de hoje. E apesar de nunca ter sido abandonado, o cuidado com ele não foi dos melhores, levando a degradação da estrutura, tanto da fachada, como do interior. José Lourenço relata que já morou no local por cerca de um ano e meio e viu de perto a situação da estrutura. “Teve um dia que eu tava saindo com a minha filha e aí quase caiu um pedaço do teto na nossa cabeça. Caiu na frente assim, um pedaço de gesso que se pega na cabeça, um abraço. Caiu janela já lá de dentro do terceiro ou quarta. Quase matou uma pessoa lá embaixo”.

José Manoel Lourenço (ao centro) no lançamento de seu livro “Diederichsen – O sonho de Antonio em concreto” na sede da Acirp

Esse é um problema comum a patrimônio não apenas de Ribeirão Preto, mas a várias cidades no Brasil, que devido à falta de cuidado com locais como o Diederichsen acabam, até mesmo, por perdê-los e, consequentemente, sofrem um apagamento da própria história. Como destaca a arquiteta e urbanista Fabiana Mori. “É como se fosse um RG, uma identidade. Quando isso se perde, perdem-se completamente os parâmetros, a noção histórica de como aquilo surgiu. Esses locais são também de muita identidade visual, ou seja, as pessoas que frequentam, o cidadão, ele se sente pertencente àquele local, da grande importância da cidadania, o senso de pertencimento, de coletivo e de comunidade para o espaço público”.

Ela destaca ainda que o prejuízo não é apenas para quem convive diariamente com esses locais, mas para as gerações que virão. “Se pensarmos numa situação em que vai se perdendo completamente e essas construções, as novas gerações elas não conseguem estabelecer esse senso histórico do coletivo, do público e do que é viver na cidade”.

Atualmente, o edifício Diederichsen está vazio, depois que a proprietária o esvaziou, em 2017, para dar início ao projeto de restauração, que ocorre em conjunto com o IPCCIC (Instituto Paulista de Cidades Criativas e Identidades Culturais). A ideia é retomar o multifuncionalismo do prédio, oferecendo moradia, comércio e serviços, além de ser um espaço cultural e acessível ao público. A estimativa é que o projeto seja concluído dentro de seis anos. Até lá, esperamos que outros locais da cidade que precisam de mais atenção, também possam voltar a pauta e, quem sabe, tenham a oportunidade de serem ressignificados diante da população ribeirão-pretana.

Compartilhe essa publicação

Leia mais