Entrevista

Do movimento estudantil ao exílio

Leopoldo Paulino relembra a militância, a prisão no Congresso de Ibiúna e a fuga do Brasil durante a ditadura militar

Vítor Baptista – Leopoldo, quando começou o seu interesse por política?

Leopoldo Paulino – Desde criança, meus pais eram comunistas. Aprendi muito cedo, lia bastante. Quando houve o golpe em 1964, eu tinha 13 anos e já entendia o que estava acontecendo.

Qual foi o seu papel no movimento estudantil?

Fui presidente do Grêmio do Colégio Otoniel Motta. Lideramos manifestações e enfrentamos a polícia. Em 1966, quando eu ainda estudava no colegial, houve uma grande passeata reprimida com violência: nós jogávamos pedras, a polícia lançava bombas de gás lacrimogênio, e começamos a atirar bolinhas de gude e rolhas na cavalaria. Os cavalos escorregavam e alguns caíram. Foi uma batalha intensa, com a participação de estudantes de toda a cidade.

Como foi sua filiação ao Partido Comunista Brasileiro?

Entrei aos 15 anos, em 1966. Era clandestino, participávamos de panfletagens e ações de resistência. Com o tempo, surgiram cisões dentro do partido, que defendia conciliação e não luta armada.

Foi quando você entrou na ALN (Ação Libertadora Nacional)?

Sim. Nosso grupo defendia a luta armada. Participamos da guerrilha, treinávamos e abrigávamos companheiros perseguidos.

E sobre a prisão no Congresso de Ibiúna?

Foi um episódio marcante. Fomos para um sítio em Ibiúna, a ideia era realizar o congresso em segredo, mas a polícia descobriu rapidamente. Tentamos fugir pelo mato, mas percebemos que correr significaria sermos fuzilados. Então, voltamos e nos entregamos. A PM nos recebeu com pancadaria e chutes, e nos levou ao Presídio Tiradentes, em São Paulo. Depois, fomos transferidos para o Carandiru e, aos poucos, liberados pelo DOPS (Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) identificar as siglas políticas para o leitor)

Como você conseguiu escapar da polícia em 1969?

Consegui escapar quando cercaram minha casa. Pulei muros com a ajuda de vizinhos, fiquei um mês escondido em Ribeirão Preto, sempre mudando de casa. Estive clandestino no Brasil, correndo risco, até conseguir apoio para tirar um passaporte falso. Com 19 anos, saí do país por Foz do Iguaçu de ônibus.

E o retorno ao Brasil?

Foi semiclandestino, voltando antes da anistia, em julho de 1974. Hoje, vejo a democracia brasileira como resultado de muita luta.

Que conselho você dá para os jovens que já nasceram na democracia?

Que se informem, leiam e conheçam a história. O conhecimento é a principal defesa contra a ignorância e a repetição de erros do passado.

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