
Em agosto de 2025, o governo dos Estados Unidos surpreendeu parceiros comerciais ao anunciar tarifas de até 50% sobre produtos brasileiros, atingindo cerca de 36% das exportações nacionais. A medida, defendida pela administração de Donald Trump como uma forma de “proteger a indústria americana”, gerou apreensão em Brasília e no mercado internacional. Setores como carne bovina, café e frutas tropicais foram os mais afetados, e a Confederação Nacional da Indústria (CNI) projetou queda de 18% nas vendas ao mercado norte-americano nos dois primeiros meses de vigência.
O governo brasileiro reagiu anunciando linhas de crédito de R$30bilhões e acionando a Organização Mundial do Comércio (OMC), alegando violação de acordos multilaterais. A tensão, porém, ganhou novos contornos nas últimas semanas, após uma videoconferência entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump. O encontro, descrito por Lula como “extraordinariamente bom”, reacendeu expectativas sobre uma possível revisão parcial das tarifas.
Para entender os impactos e motivações dessa política, o Mapa Aberto conversou com Christian Ganzert, doutor em Administração pela USP, e Marcelo Bozzi, economista. Ganzert avalia que a decisão americana foi economicamente equivocada: “O Trump deu um tiro no pé, porque muitos produtos brasileiros fazem parte da composição de indicadores que definem preços nos Estados Unidos.” Ele explica que a alta nas tarifas pode agravar a inflação já elevada no país: “O suco de laranja, por exemplo, é parte da cultura americana. Aumentar seu preço impacta diretamente o consumo do trabalhador.” Ele destaca ainda que o impacto se estende à cadeia de proteína animal: “Metade da logística de carne nos EUA é controlada pela brasileira JBS. Fechar portas para o Brasil não resolve o problema, só encarece o produto.” Para o Brasil, contudo, o cenário é menos grave. “Prejuízo não vai haver. Tivemos super safra, e a combinação dela com a redução das exportações ajudou a diminuir o preço da cesta básica”, explica Ganzert.
Já Marcelo Bozzi avalia que o recente diálogo entre Lula e Trump reflete uma tentativa de reposicionar o Brasil no cenário geopolítico. “Na minha opinião, não haverá uma exigência de concessões econômicas. O que a Casa Branca espera é uma mudança na postura internacional do Brasil, hoje muito alinhada a regimes como Venezuela, Irã, Rússia e à própria China. Não se trata de romper com a China, mas de evitar pautas como a criação de uma moeda alternativa ao dólar”, analisa. Para ele, o objetivo de Washington é simbólico: “Os EUA esperam que o Brasil se torne mais amigo da postura americana, adotando uma diplomacia menos confrontadora.”
Bozzi também descarta que o tarifaço represente uma nova era de protecionismo global: “O protecionismo já é reconhecido como política ruim. Acho que Trump usa as tarifas como instrumento de negociação, não como algo duradouro. Depois que alcançar o que quer, deve abandoná-las, porque essa política é nociva até para quem a aplica.”
Enquanto Lula busca suavizar as tensões e Trump tenta responder às pressões internas, especialistas concordam que a disputa vai muito além de questões econômicas, mas sim, políticas. Ela expõe um jogo que pode redefinir as relações entre Brasil e Estados Unidos e, possivelmente, o próprio papel do país latino-americano no comércio global.