A literatura abre portas para a descoberta de novos mundos, permitindo ao leitor viajar pelas páginas dos livros, mas o que pode ser uma atividade cotidiana para algumas pessoas, pode ser mais difícil para outras. Esse é o caso de pessoas com deficiência visual que, muitas vezes, não conseguem ler livros da mesma forma que pessoas com a visão normal. Pessoas com algum tipo de deficiência visual, como redução da visão ou até mesmo cegueira total, precisam de outras formas de acessar a literatura, como livros com letra ampliada, audiobooks e livros em braille, o sistema universal de escrita e leitura tátil para pessoas cegas ou com visão reduzida.
Em Ribeirão Preto, pessoas com algum tipo de deficiência visual podem encontrar esses materiais na Associação dos Deficientes Visuais de Ribeirão Preto (Adevirp), uma instituição sem fins lucrativos que colabora para o processo de desenvolvimento e inclusão educacional, cultural, profissional e social de pessoas com deficiência visual em Ribeirão Preto e outros 40 municípios. No âmbito da leitura, a Adevirp conta com um acervo de 821 livros em braille e 1.365 audiobooks disponíveis para seus assistidos e para o público geral, e isso pode transformar vidas.

A educadora social da Adevirp Gleice Priscila dos Santos explica que pessoas com deficiência visual não estão ligadas à leitura o tempo todo, diferentemente de pessoas com a visão normal, afinal “quem enxerga tem contato visual com banners, com placas de estabelecimentos e com a leitura de modo geral, de forma involuntária, nós que temos uma deficiência visual, não”, explica. Ela, que tem cegueira total desde os 12 anos, acrescenta ainda: “por isso é importante incentivar a leitura, seja em braille, em audiobooks ou aplicativos que fazem a leitura em voz alta, porque dessa forma podemos navegar por caracteres, palavras e linhas”.
Barreiras
No entanto, não são todos os deficientes visuais que têm acesso aos livros e outros materiais do dia a dia em braille, aos audiobooks e aos aplicativos de leitura, e isso constrói barreiras para o desenvolvimento e para o letramento dessas pessoas. Para a pedagoga Vivian Massullo Silva, docente nos cursos de graduação e pós-graduação da Universidade de Ribeirão Preto (Unaerp), “a leitura é uma das chaves da autonomia”. É por meio da leitura que pessoas se informam, se posicionam e participam do mundo, e isso não é diferente para os deficientes visuais, pois “é isso que forma o cidadão, alguém que entende seus direitos, que pode argumentar, criar e transformar”. Ela afirma ainda que a leitura “é uma forma de existir no mundo com independência e dignidade”.
Além da falta de acesso aos materiais que facilitam a leitura para pessoas com deficiência visual, Vivian também afirma que existem barreiras menos visíveis que dificultam o acesso à literatura e ao letramento. Segundo ela, “são barreiras menos visíveis, como a ideia de que a leitura para essas pessoas é limitada ou diferente, mas não é. O que muda é apenas o meio. O desejo de ler, o prazer e o direito de acessar o conhecimento são os mesmos, o problema não está na deficiência, mas nas barreiras criadas historicamente pela sociedade”.

Para a professora, quando essas barreiras existem, uma saída é a leitura compartilhada. “Colegas lendo juntos, professores fazendo leitura em voz alta. Isso ajuda outras pessoas e estimula a criatividade e a cooperação”, garante. Vivian finaliza dizendo que “formar leitores com deficiência visual é acreditar que todos têm direito à palavra, ao conhecimento e à leitura”.
