Agronegócio

O agro como aliado do combate às queimadas

Na contramão da visão popular, o agronegócio dribla estereótipos e assume o protagonismo no combate aos incêndios no interior paulista

Era 19 de agosto de 2019 quando cidades do sudeste brasileiro foram tomadas por uma onda de nuvens de fumaça negra vindas, especialmente, da região norte do país. Por lá, as queimadas já duravam dias. Entre os dias 10 e 11 do mesmo mês, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) havia detectado 1.457 focos de calor apenas no Estado do Pará, o que ficou conhecido como o “Dia do Fogo”. 

O assunto repercutiu nacional e mundialmente, gerando uma onda de debates políticos acerca do desmatamento, com destaque para a região amazônica. No ano seguinte, a tragédia ambiental virou música, imortalizada nos vocais e acordes da banda de rock Caostropi. Com um jogo de palavras bem elaborado e abusando das figuras de linguagens, a letra escrita por Rafael Ferruci denunciava o que muitos classificam como um crime ambiental. 

Como é que não viu? O corpo caiu. Não há santo que proteja. […] A fumaça chegou no céu. E a treva ao chão. Como é que cai água. Se ainda há fogo lá?”, afirma um trecho da canção. 

Cinco anos depois, em agosto de 2024, o fogo voltou a assustar, desta vez, principalmente, o Estado de São Paulo. Na tarde de quinta-feira, 22 de agosto de 2024, os incêndios ambientais atingiram números recordes, causando consequências dramáticas para toda a população: aulas em escolas foram suspensas, usinas de açúcar e álcool evacuadas, houve engavetamento de veículos em rodovia, o aeroporto foi interditado, isso sem falar na baixa umidade do ar, a forte onda de calor, os animais mortos no campo e produções agrícolas destruídas.

Apenas naquele mês, o Brasil registrou 5,65 milhões de hectares queimados, conforme mostra o levantamento do Monitor do Fogo, do MapBiomas.  São Paulo foi o estado mais atingido com 370 mil hectares destruídos pelo poder das chamas que devastaram áreas de propriedades privadas (88,7%), especialmente de produção de cana-de-açúcar. A região de Ribeirão Preto acumulou os maiores índices de registros, forçando a criação de um gabinete de crise do governo estadual na cidade, uma força-tarefa que reuniu mais 15.335 pessoas no combate às chamas. 

As suspeitas iniciais de órgãos governamentais e dos próprios governos — estadual e federal —, é de que os incêndios tenham acontecido simultaneamente em lugares diferentes, de maneira criminosamente orquestrada, a fim de colapsar os sistemas de combate e fiscalização. Entre os dias 24 de agosto e 31 de setembro daquele ano, 11 pessoas foram presas por suspeita de envolvimento nos incêndios ocorridos no Estado de São Paulo.

A Defesa Civil detectou que 99% dos focos de incêndio foram causados por ações humanas, destacando um padrão na forma com que esses incêndios se apresentaram. No debate público, é comum que, sem investigação, o setor do agronegócio seja associado à autoria destes crimes ambientais.

Em 2025, cidades da região de Franca (SP) ficaram registradas na lista de municípios que mais registraram focos de incêndios. Em Igarapava, cidade com pouco mais de 28 mil habitantes, foram registrados até setembro deste ano, 59 focos de incêndios, o que colocou o município no topo do ranking. 

Apenas na primeira semana do mês, mais de cinco mil hectares de pasto, reserva ambiental, canaviais e mata nativa foram completamente destruídos. Como em outras localidades do interior, a cidade não conta com um Corpo de Bombeiros e para a linha de frente do combate às queimadas, são acionadas a equipe da defesa civil e brigadas de incêndio de usinas da região.

Durante sua participação na Comissão de Agricultura da Câmara dos Deputados, em julho deste ano, a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, salientou que é importante a identificação dos reais responsáveis pelas recentes queimadas em todo o país. Além de pontuar que o registros de incêndios em mesmo dia e horário só que em locais diferentes, de fato denunciam uma possível ação orquestrada de grupos criminosos. 

A ministra ainda destacou ser muito importante haver a identificação dos responsáveis, pois, segundo ela, o desmatamento por incêndio é maior que o por corte raso e apenas 2% das propriedades rurais estão irregulares, “sendo que essas não representam todo o setor”. 

Bombeiro civil realiza trabalho independente e voluntário no combate às chamas durante incêndio em mata em São Joaquim da Barra (SP). Foto: Guilherme Carvalho

O combate na prática – No campo e nas diferentes localidades atingidas pelo fogo, o combate direto e efetivo no interior paulista é assumido pelos brigadistas de usinas, combatentes de projetos ambientais independentes, defesas civis e equipes de funcionários públicos municipais que, em alguns casos, atuam dando apoio com caminhões-pipa de prefeituras. 

O coordenador da Defesa Civil do município de Morro Agudo (SP), Luciano Tavares, conta que em situações de grandes incêndios e sem uma grande equipe para combater rapidamente as chamas, a prioridade é a vida. “A prioridade sempre é a vida humana e também dos animais que vivem nessas áreas. Além da preservação do meio ambiente com sua fauna e flora”, conta. 

Nestes casos, os riscos e efeitos provocados pelas chamas ultrapassam as vegetações devastadas pelo fogo. “A própria vida dos combatentes que atuam na linha de frente desses incêndios [está em perigo]. Esse serviço exige treinamento e estratégias no enfrentamento”, pontua. 

Luciano explica que há a hora certa de agir, seja com o auxílio dos caminhões-pipa ou com a utilização do contrafogo — técnica utilizada para eliminar a vegetação que está no caminho do incêndio principal, criando uma barreira de terra queimada para pará-lo. O coordenador da Defesa Civil alerta que nestes casos, o brigadista deve se atentar a fatores importantes como condições meteorológicas.

A extensão territorial do município de Morro Agudo dificulta ainda mais o trabalho de atendimento dessas ocorrências. Com 1.388 mil quilômetros quadrados, só é possível combater as queimadas e atender os registros com uma ação conjunta entre a Defesa Civil do município e as brigadas de usinas. “O combate só é possível com essa parceria. As usinas possuem caminhões preparados para esse fim e não medem esforços para conter os focos”, afirma. 

Do outro lado, o reconhecimento da parceria também é recíproco. Grandes produtores rurais e usinas que veem quase que rotineiramente suas produções sendo destruídas pelo poder das chamas, são um dos setores mais afetados, senão o mais afetado por esses trágicos acontecimentos. 

O tecnólogo em processos ambientais, Flávio Henrique Covas de Oliveira atua junto com a equipe de combate a incêndios da Usina Alta Mogiana, em São Joaquim da Barra (SP) e explica que nas emergências é colocado em ação o PAME – Plano de Auxílio Mútuo em Emergências. O PAME, fundado em 2011, reúne, além da Alta Mogiana, as usinas Colorado e Guaíra e conta ainda com o apoio da Defesa Civil, Polícia Ambiental, Polícia Rodoviária e Corpo de Bombeiros, além de outras instituições. O Plano traça um alinhamento das estratégias para a prevenção de incêndios, preservação da vida e do meio ambiente.

A Usina Alta Mogiana conta com 726 colaboradores que recebem treinamentos anuais. Somado às demais unidades membros do PAME, são 1.465 colaboradores treinados e aptos a assumirem a frente de combate. Além da capacidade humana, as usinas não dispensam o auxílio da tecnologia para somar na efetividade das ações.

Com monitoramento pelo Centro de Controle Operacional (C.C.O) por meio de um sistema de captação de imagens de câmeras digitais de alta definição instaladas em torres e capazes de obter imagens em tempo real durante as 24 horas do dia, sendo dotado de sistema de varredura progressiva que permite retorno e zoom de um determinado ponto, além de modernos caminhões-pipa devidamente equipados sob responsabilidade da Equipe de Combate à Incêndio que também se mantém preparada para atender ocorrências a qualquer momento do dia.  

Apenas em 2025, a central de combate a incêndios da Usina Alta Mogiana atendeu 270 ocorrências, que variam desde incêndios em áreas de cultivo de cana própria, de fornecedores, terceiros, até em outras culturas, vegetação nativa, margens de rodovias, de linha férrea, terrenos e áreas urbanas em geral. 

O campo, que por vezes é coberto pela fumaça e vive sob constantes ataques e suspeitas, se revela como a primeira e talvez a mais importante barricada contra o fogo. O setor assume o posto de defensor do meio ambiente e deixa de lado a autoria de possíveis crimes. No vasto horizonte de canaviais, o agro une tecnologia de ponta com a coragem dos brigadistas, que ao atuarem na defesa da produção agrícola, defendem o bem-comum do país. Para que o dia do fogo não se repita e a canção de Caostropi não ganhe nova estrofe. 

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