Agronegócio

Agricultura: substantivo feminino

Mulheres assumem protagonismo em cargos de liderança na produção agrícola do país

“Chegamo, os diferente. É fácil conhecer a gente de chapéu e bota. Traiada a todo instante de camisa de brilhante. Atualizando a moda”, iniciam assim os versos da música sertaneja lançada em 2021 pela cantora sertaneja Ana Castela em parceria com a dupla Léo e Raphael. “As paty, acho bonito; mas vou falar o estilo que a gente gosta: as meninas da pecuária, é top, é top. Quando o berrante toca, é a ‘muierada’ no galope”, continuam as estrofes seguintes. 

Mais do que uma música que se consolidou como um sucesso no mundo sertanejo, acumulando mais 115 milhões de visualizações em seu clipe no Youtube, a canção narra a subversão de uma ordem. Nas palavras narradas e nas imagens do clipe, o estilo de vida sertanejo típico do interior do país passa a ser explorado e ocupado também pelas mulheres, que parecem se adaptar a um novo estilo de vida. A exaltação da presença feminina no agronegócio tem sido alvo de exploração do movimento intitulado “feminejo”, uma vertente do sertanejo universitário que surge na década de 2010, impulsionado por uma maior participação feminina na produção cultural do gênero no país. 

Misturado com o “agronejo” – estilo musical envolvente, que abusa de melodias do pop, funk, eletrônico, sem romper com a tradição do sertanejo raiz, a combinação da música apresenta, de maneira comercial, um movimento que já vem sendo experimentado há algum tempo da porteira do campo para dentro: a participação feminina na produção rural no Brasil. As necessidades e os desafios do trabalho rural parecem persistir ao tempo, entre avanços e entraves gerais, passaram a ser coordenadas, em muitos casos, por outras formas de pensar e fazer. A voz que o ecoa, hoje, tem um novo timbre: o feminino. 

A estereotipação social dessas mulheres fomenta narrativas excludentes, mas viabilizam uma união coletiva que resiste. Reconhecido como a locomotiva do Brasil, o Estado de São Paulo possuí números superlativos em relação à maior parte dos índices de desenvolvimento. A participação da produção paulista no Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro evidencia isso. De acordo com o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), em 2023, o PIB do agronegócio do Estado de São Paulo foi de R$ 609,7 bilhões, representando 18,9% do PIB total do estado, 5,6% do PIB total brasileiro e 23,6% do PIB do agronegócio nacional. 

Na categoria protagonista da agricultura, São Paulo lidera em diferentes frentes. Entre os dez principais produtos da agricultura do Estado, onde a produção totaliza R$94 bilhões de reais, o Estado se apresenta como o principal produtor nacional em 50% dessas culturas como cana-de-açúcar, laranja, amendoim, banana e café, além de itens da cesta básica, que exercem forte pressão sobre a economia. 

Segundo o último censo agropecuário do IBGE realizado em 2017, quase 20% dos empreendimentos rurais do país são dirigidos por mulheres. Em 2006, o percentual de mulheres rurais empreendedoras era de 12%. Neste cenário, os números mostraram que cerca de 15 milhões de mulheres vivem na área rural, o que representa 47,5% da população residente no campo no Brasil. Elas comandam, pelo menos, 30 milhões de hectares com produção agropecuária no país.

O aumento da participação feminina não apenas fortalece a base econômica das comunidades rurais, mas também atua na promoção da equidade de gênero, um aspecto de suma importância para o desenvolvimento sustentável de toda a sociedade. Essa maior representatividade também reflete uma mudança cultural importante, onde as habilidades e competências das mulheres passam a ser reconhecidas e celebradas.

Essa transformação sociocultural não só beneficia as próprias mulheres, mas também fortalece o setor como um todo, tornando-o um ambiente mais colaborativo e diverso. Histórica e culturalmente, as mulheres desempenharam papéis variados na sociedade ao longo dos anos. Não diferente disso, o campo se desenvolveu como um setor de produção tradicionalmente dominado por homens, especialmente quando se analisa os cargos de liderança. 

11 milhões de mulheres

No entanto, as mulheres envolvidas no agronegócio estão cada vez mais organizadas e engajadas, atuando fortemente para a criação de ambientes mais dinâmicos e impulsionando o crescimento dos negócios, tanto dentro quanto fora da porteira. Uma pesquisa realizada pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), em colaboração com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), revelou que cerca de 11 milhões de mulheres estão empregadas no agronegócio brasileiro. No berço do tradicionalismo da produção agrícola, as mulheres são, em muitos casos, inseridas no mercado por meio de vínculos familiares. Algumas delas se preocupam em buscar qualificação acadêmica para, somente depois, assumir a gestão dos negócios de forma planejada. Outras assumem no processo natural de sucessões familiares.

Um destes casos é o da administradora de empresas e empreendedora rural, Juliana Farah. Na rotina pessoal, conta com os desafios de coordenar um empreendimento de gerenciamento de créditos desde 2001, até a conciliação entre o campo e a cidade, liderando a produção de soja, milho e pecuária de corte no interior dos estados do Mato Grosso e de São Paulo.

Dados da Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG) apontam que 71% das mulheres ligadas ao setor acumulam diversas responsabilidades, que vão desde a administração da propriedade até às obrigações pessoais. No entanto, a realidade vista de mais perto, mostra que por trás da cadeia de produção, há também uma cadeia de organização de poder, ou, pelo menos, havia. Juliana reconhece que para as mulheres, as dificuldades são agravadas e aponta três grandes obstáculos: “ambientes conservadores e, muitas vezes, intimidadores; avaliação inferior das nossas competências; e a falta de aceitação da liderança feminina”.

A produtora rural demonstra domínio do assunto e cita uma série de fatores complexos que vão da volatilidade de preços até o cenário geopolítico mundial como dificuldades exigem do produtor, capacidade técnica, resiliência, soluções inovadoras e colaborativas.

Juliana Farah, presidente da Comissão Semeadoras do Agro, durante apresentação do painel “A Tecnologia como Ferramenta do Empoderamento Feminino” no Vision Tech Summit. Foto: GVA Hub

Soluções inovadoras

Buscando o equilíbrio entre produção e preservação ambiental, grande parte das mulheres líderes de produções agrícolas promovem uma revolução de gênero no campo, revolucionando os modos de produção com práticas inovadoras. “São mulheres criando seus próprios negócios e diversificando as atividades nas propriedades rurais, explorando novas oportunidades, como o agroturismo, a produção de alimentos orgânicos e a agroindústria familiar”, pontua Juliana. 

Atualmente, Juliana Farah lidera também a Comissão Semeadoras do Agro da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (FAESP), fundada em 22 de março de 2022. A comissão mantida pelo Sistema FAESP/SENAR e Sindicatos Rurais, em parceria com o Sebrae-SP, conta ainda com o apoio da Secretaria de Política para Mulheres do Estado de São Paulo, de outras ONG´s, secretarias municipais de saúde, prefeituras e outros parceiros colaborativos. A missão é promover o protagonismo das mulheres nas diversas atividades do campo, reconhecendo suas contribuições e valorizando suas competências para o setor. 

“Até o final de 2024 foram 219 eventos municipais, 138 municípios paulistas visitados, 111 sindicatos rurais envolvidos, mais de 20 mil mulheres reunidas e outras 60 mil impactadas. 

No primeiro semestre de 2025 os números também já são expressivos. Foram 50 encontros municipais, 46 municípios paulistas visitados, 35 sindicatos rurais envolvidos e reunimos cerca de 4.200 mulheres”, relata a presidente. 

Determinada a transformar realidades, principalmente através da comissão que preside, a empreendedora acredita que sejam necessárias medidas permanentes e efetivas em prol do fortalecimento das mulheres nos mais diversos setores produtivos, principalmente para garantir que elas possam emancipar-se de “correntes que insistem em dizer que somos meras coadjuvantes”. 

Orgulhosa do caminho que tem percorrido, ressalta que a comissão atua para que as mulheres acreditem ser possível fomentar negócios e gerar autonomia financeira na produção rural. Outra frente de atuação é desenvolver o projeto “Semear é Cuidar”, uma iniciativa pioneira junto ao Programa Promovendo a Saúde no Campo do Senar-SP, que leva informações e exames preventivos de doenças às mulheres rurais em todo o estado de São Paulo.

“É importante notar que os desafios para as mulheres se manifestam de diferentes maneiras, dependendo do contexto cultural, social e econômico de cada região. Superá-los exige um esforço conjunto de governos, empresas, organizações da sociedade civil e das próprias mulheres”, destaca.

Invisível para os que se negam a ver, a participação feminina na agricultura brasileira já é uma realidade inquestionável. Para colher autonomia e protagonismo, essas mulheres estão reinventando formas de produção, desafiando rastros e deixando novas marcas em uma terra até agora pouco explorada pelo gênero feminino. 

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